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Cenas & Coisas

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25.Ago.20

Portuguesa em França mas Avec em Portugal

Como já falei no blog, nasci em França perto de Paris de pais portugueses que estavam lá para trabalhar e ter uma vida melhor. Vínhamos todos os anos passar férias a Portugal no Verão e por vezes no Natal também. Sempre sonhei em vir de vez com os meus pais e a minha irmã, mas eles quiseram que eu estudasse até ao 12º ano para ter tempo de perceber se queria mesmo viver em Portugal ou não.

 

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Até lá vivia em França, mas sentia-me mais portuguesa do que francesa, até porque me faziam sentir assim. Na escola, logo cedo com menos de 10 anos já me chamavam de “bacalhau” ou de “poilue” quando nem se quer tinha mais pelos ou buço do que as outras meninas francesas e na altura nem se quer gostava de bacalhau. Nem sempre é fácil lidar com esse tipo de gozo principalmente quando se é criança.

Houve sempre muito preconceito, uma vez à conversa com um colega do liceu estava-lhe a dizer que a minha irmã vivia em Lisboa e estudava direito e ele vira-se para mim e pergunta-me: “mas há advogados em Portugal? Não são só trolhas e mulheres de limpeza?” e no seguimento dessa conversa perguntou-me como era Lisboa, se era uma aldeia e eu no gozo disse-lhe que sim e que só se andava de trator e que havia pastores com ovelhas por todo lado. Essa conversa aconteceu em 2002 ou 2003. Hoje em dia esse preconceito já não existe tanto porque com o boom do turismo em Lisboa, muitos franceses já conhecem a nossa capital e inclusive mudaram-se para cá.

 

Em 2004 vim estudar para Lisboa e pensava eu que finalmente ia sentir-me em casa, que já ia ser portuguesa em Portugal, mas passei de Portuguesa em França a ser a Francesa ou Avec em Portugal. Não é pela minha aparência que fui desmascarada porque tive sempre um estilo mais próximo das adolescentes de cá. Nunca usei meia branca com ténis de corrida e coisas do género (alerta preconceito sobre os emigrantes!!), mas tenho um sotaque francês terrível que apesar dos anos não passa. Sotaque esse que aguça a curiosidade de muitos até perceberem que é francês, já o confundiram com uma deficiência da fala nos meus primeiros anos cá (dessa vez foi um abuso porque só tenho um problema com o R e o som lhe). E pronto, já conhecia algumas ideias feitas que existiam sobre os emigrantes, as meias brancas, a toalha de praia de Portugal, o símbolo de Portugal no carro, Michel tu vas tomber, etc. Na faculdade descobri os preconceitos sobre os Franceses. Ou seja, as francesas são umas atrevidas, não tomam banho e não fazem depilação. Essa dos pelos foi a gota de água! Quer dizer, dum lado ou de outro não me safo da fama de ser peluda!!! Foi sempre tudo no gozo e aqui nunca sofri com isso porque já tinha outra idade e capacidade para rir de mim própria. Além disso nunca senti que se estivessem a rir de mim mas sim que se estavam a rir comigo. 

 

Para concluir, foi duro esperar tantos anos até vir para Portugal. Por mim se os meus pais me tivessem deixado, teria vindo com a minha irmã logo em 1996 até porque a distância foi muitas vezes difícil de aguentar. Mas apesar de tudo estou agradecida por ter vivido mais um tempo lá e ter crescido com a cultura francesa. Hoje faço de tudo para transmitir aquilo que guardo de França aos meus filhos e mantenho uma ligação forte com o país onde nasci. Mas uma coisa é certa, amo Portugal de paixão (apesar de achar que podíamos ser muito melhores em coisas importantes como o sistema de saúde, as estradas, o sistema de ensino público, etc. Mas não entremos em polémicas) e é aqui que quero ficar e que os meus filhos cresçam se possível. E quanto ao futebol, Portugal sempre!

 

 

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